sábado, 23 de agosto de 2025

Pensamento conservador (Teoria das Elites) - IFCS


Aulas do professor Roque: Ciência Política III

Inglaterra: Fez duas revoluções no século XVII – 1640 e 1688. Nas duas revoluções fizeram uma cirurgia plástica na ordem política deles para que ela passasse a condizer com o tipo de sociedade que eles queriam construir e dar continuidade – sociedade aberta para negócios.
            Primeira revolução da França veio calçada na doutrina aos direitos humanos.
            Surge o pensamento conservador na Inglaterra precursor: Edmund Burke (1729-1797) século XVIII. Um Whig (Liberal) – contra revolucionário. “Reflexões sobre a revolução francesa” (1790).
            Foi defensor dos rebeldes nas colônias americanas – defendeu o ideário de libertação dos colonos.
            Recusa a proposta de Dr. Price de que os ingleses deviam se espelhar na revolução francesa para dar continuidade na Inglaterra.
            Declaração dos direitos 1789 – princípio de soberania. Burke (a ação revolucionária só é legítima se houver ameaça ou para restaurar o que está possibilitado de se perder politicamente) – sustenta o regime monarquista (1789). Exemplo: Liberdade.
            Vale dizer que a classe governante não é homogênea. Uma sociedade se caracteriza pelo perfil de sua elite governante. Ela mantém seu poder pela força física (“leões”) ou pelo convencimento, astúcia (“raposas”). Governo legítimo é aquele que tem o reconhecimento dos governados.
            Pareto formulou uma lei da distribuição da renda que conclui que a desigualdade de distribuição da renda depende muito mais da natureza humana do que da organização econômica  da sociedade. As rendas inferiores não poderiam aumentar e a desigualdade entre as rendar não poderia diminuir, a não ser que a riqueza crescesse mais depressa do que a população – quatro variáveis, que se influenciam mutuamente, explicam o movimento geral da sociedade: interesses, resíduos, derivações e heterogeneidade social. Essa tese se opõe à tese marxista de que a infra-estrutura econômica determinaria, em última instância, todo o resto.

Pareto x Marx

            Pareto: A luta de classes é sim um dado fundamental na história, mas ela não se dá unicamente e devido à propriedade dos meios de produção. A luta de classes, ou entre massa e elite (já que teve e terá), pode ter muitas outras causas. Uma vez destruída a propriedade privada, outros motivos de conflitos surgirão, e a paz eterna é uma ilusão dos socialistas. Todas as revoluções levarão a substituição da minoria privilegiada e governante. A história das sociedades humanas é a história da substituição de elites governantes (aristocracia).
            Pareto tenta estudar as causas das quedas das elites governantes. Conclui que a utilização da força é sempre necessária em alguma proporção. (resíduos da primeira classe) Quando a elite governante se torna excessiva e intelectual, ela logo cai.
            A estabilidade social pode ser mantida através da eliminação dos revolucionários ou de sua absorção pelo poder. O principal aspecto da forma geral da sociedade é, para Pareto, a circulação das elites.
            O equilíbrio social depende da freqüência dos resíduos de primeira e segunda classe. A elite deve ter mais os primeiros e a massa, os segundos (a grosso modo).
            A história é feita dos ciclos de dependência mútua, que são as oscilações dos resíduos na elite e na massa.
            A obra sociológica de Pareto leva a um diagnóstico das sociedades democráticas, que são marcadas pela ligação entre a classe política e os caras, elites essas em que prevaleceriam resíduos de primeira classe.
            Outras classes de resíduos seriam: “necessidade de manifestar os sentimentos por meio de atos exteriores”; “resíduos relacionados com a sociabilidade”; “integridade do indivíduo e dos seus dependentes”; “resíduos sexuais”.
            As classificações de resíduos e derivações é uma doutrina da natureza humana tal qual ela se manifesta na vida social. As classes de resíduos correspondem a sentimentos mais ou menos constantes em todas as sociedades ao longo do tempo. Em outras palavras, Pareto é da opinião de que o homem não muda fundamentalmente.
            Pareto divide as derivações em quatro classes: (seu objetivo é saber como os humanos utilizam os procedimentos psicológicos, lógicos ou “pseudológicos” para convencerem se uns aos outros) “simples afirmações (“é assim porque é assim”)”; “argumento de autoridade”; “sentimentos ou princípios, entidades jurídicas ou metafísicas, vontade de seres sobrenaturais” (apela para alguma dessas coisas); “provas verbais (uso de termos de sentido vago, duvidoso – discursos políticos)”. As derivações têm caráter não lógico, mas Pareto admite que os humanos não precisem se portar de modo lógico-experimental quando se relacionam. Pelo contrário, afirmações não lógicas tocam muito mais as pessoas (os resíduos) do que demonstrações lógico-experimentais.
            A humanidade não caminha de forma uniforme rumo ao pensamento lógico experimental. Em cada sociedade há setores mais avançados e mais atrasados nesse sentido. Pareto não concebe mais sociedade que seja toda ela coberta por esse tipo de conduta (pensamento), visto que, por natureza, a conduta humana nem sempre é motivada pelo raciocínio. E porque os objetivos de grupo social não são determinados pela ciência.
            Após o estudo dos resíduos e derivações, Pareto passa à síntese sociológica, ou à análise do funcionamento da sociedade.
            As oscilações da força relativa dos resíduos da primeira e da segunda classes constituem a principal causa das transformações históricas.
            Noção de heterogeneidade: a sociedade é heterogênea por natureza. Nisso inclui-se a sua divisão entre massa e elite.
            Elite é um termo objetivo e neutro e denota aqueles que o obtiveram mais sucesso em seu ramo de atividade. Dentro dessa elite está um grupo ainda menor, a elite governante. (tem influencia no governo).
            O Resíduo é uma conduta humana que provém de sentimento ou estado de espírito; ele é constante. Resíduos correspondem a instintos humanos.  

            Derivação é a teoria justificativa que se dá para aquela conduta; ela se transforma de acordo com tempo e lugar.
            Só podemos conhecer os resíduos que são justificados por explicações (instintos que levam a raciocínios). Fora os resíduos, há apetites, gostos e inclinações.
            Resíduo é a manifestação de sentimentos ou instintos. É um conceito analítico forjado para compreender o funcionamento da sociedade.
            O objetivo de Pareto as estudar os resíduos (expressões de sentimentos) é chegar o mais próximo possível do estado psíquico dos humanos, que rege a grande maioria de suas ações. O estado psíquico nunca se deixará revelar diretamente (os resíduos não abrangem todos os instintos humanos). Ele é a causa das ações não - lógicas.
            Lembrando que Pareto quer estudar as ações não - lógicas. Resíduos e derivações.
            Pareto faz uma classificação dos resíduos como uma “análise teórica da natureza humana para uso dos sociólogos”. Eles se dividem em 6 classes, que se dividem em gêneros e espécies. As duas classes mais importantes são a primeira e a segunda. Primeira: “instinto das combinações” – é o instinto de raciocinar, tirar conclusões lógicas; está na raiz dos progressos intelectuais da humanidade. Algumas sociedades estão mais repletas desse resíduo do que outras, e isso têm conseqüências políticas. Se resíduo induz a mudanças, renovações, revoluções.
Segunda: “persistência dos agregados” – Corresponde à inércia, à correspondência humana a conservar as combinações estabelecidas e rejeitar a mudança. Exemplo: costumes, organização familiar, crenças religiosas. Percebe-se, portanto, que os resíduos dessas 2 classes têm um importante significado social.
            OBS: Os interesses e as ações interessadas (combinar a meios para atingir a satisfação máxima para si) são ações lógicas. Têm relação com riqueza e poder.
           
Ciência e política

Pareto é grande crítico da ilusão racionalista do século XIX. O pensamento lógico experimental avança lentamente e por definição não pode fixar objetivos individuais e coletivos, e assim resolver as questões sociais. São as paixões e os sentimentos que fazem os humanos agirem de forma que a sociedade continue existindo.
            Autor profundamente pessimista: A razão não pode avançar sem que o egoísmo também avance. As civilizações mais avançadas são as mais próximas de desmoronamento. (resíduos de inovação preponderantes).
            Nesse sentido (da interpretação histórica), Pareto opõe-se frontalmente a Durkheim, otimista e racionalista.
            As idéias de Pareto em muito serviram para justificar o fascismo (minoria governante, utilização da violência, ciclos (explica a ascensão) de dependência mútua...).
            Do ponto de vista de suas teorias, Pareto teria sido favorável a mais governante forte e liberal, tanto do ponto de vista e como científico. É possível empregar os argumentos de Pareto para justificar as instituições democráticas, ou plutodemocráticas (como dizia). Se o poder político sempre pertencerá a de oligarquia, é melhor que sejam várias, o que é menos perigoso para a liberdade individual.
            Diversas correntes de pensamento político poderiam utilizar as teorias de Pareto. Sua lição política é, por essência, ambígua. Sua preferência é pela verdade em lugar da utilidade social. As paixões suscitadas por sua obra são até hoje controversas.
            O método paretiano não é nem propriamente psicológico e nem histórico; ele é generalizador.

A crise dos anos 1890 – 1914

         As duas maiores forças ideológico – políticas: o liberalismo e o marxismo estão sob o ataque da crítica do pensamento conservador.
            Os antecedentes dessa crise da modernidade onde a razão se junta no interesse.
            A revolução francesa, ao liquidar a aristocracia, entende o interesse como algo acessível à “vontade” de realização para todos os indivíduos.
            A Inglaterra foi o primeiro país em que existiram liberdades políticas – tolerância. Final século XVII em diante. 1890 (segunda fase do K/o e da expansão imperialista.. K- financeiro começa a se expandir e hegemonizar sobre os K ind. E comercial.
            Lênin escreve sobre esta K/o.
            A revolução é uma idéia moderna.
            Noção de verdade moderna: é o conhecimento elaborado pelo uso da razão. A razão esclarece, ilumina e liberta o indivíduo.
            Mas muita coisa continua obscura na vida humana. Os céticos apontam a insuficiência da razão. Eles criticam o racionalismo.
           
“Os conservadores e a política”, texto de José Britto Roque entre outros, pelo programa de pós – graduação em ciência política.

Modernidade – razão. Razão funde-se à noção de interesse.
Todos os indivíduos têm interesses (revolução francesa inaugura isso).
Século XIX, sist K/a, sociedade de classes dividida entre interesses conflitantes: classe proprietária x classe não proprietária (K x trabalho).
Luta por liberdade e direitos políticos – ampliação da democracia.
            Tensão entre estado que dá suporte ao K/ismo industrial – financeiro e as lutas dos trabalhadores: gera críticas dos conservadores. Conservadores criticam: estado liberal clássico, democratas e socialistas. Liberalismo havia destruído a sociedade tradicional, exacerbado o individualismo e a competição, degradado os valores morais, religiosos e, conseqüentemente, a coesão social. Isso tudo permitiria a luta de classes e a radicalização dos grupos por mais direitos e pela revolução.
            Pensamento conservador – início: 1890 (até 1920).
            Tema da ordem do dia: organização social (ex: Marx, Weber, Durkheim – devido ao agravamento das questões sociais).
            Weber: descreve o desenvolvimento do ocidente como o progresso da “racionalidade”.
            Ações?? afetivo – emocional “ações” intencional.
            Os éticos são principalmente os ingleses: empiristas. Toda idéia merece ser testada.
            A modernidade revelou que o indivíduo é interessado – os indivíduos têm interesses diferentes. “diversidade de interesses”. E aí existem grupos de indivíduos com interesses semelhantes, e estes podem formar uma classe. Interesses de classe.
            A barreira a estas revelações é a ordem tradicional. Noção de honra, característica da sociedade aristocrática. Não é a racionalidade que prevalece enquanto critério, mas sim os atributos de nascença, a marca (ou a honra da corporação. Corporações de ofício – ordem dos alfaiates, dos ourives etc.
            Marx racionaliza a sociedade através de seus grupos de interesse.
            A era moderna acaba com a sociedade aristocrática e implanta a democracia.
            O papel subversivo do dinheiro reside na sua capacidade de destruição da ordem tradicional, fundada na honra.
            Quem tem dinheiro passa a figura no centro da sociedade, submetendo todos a ele.
            Século XIX – sociedade dividida por interesses: do K x trabalho.
            Capitalistas x proletários.
            Isso cria problemas na ordem política – problemas para a governabilidade.
           
Na Inglaterra conseguiu-se evitar confronto entre as classes, ao contrário da França.
Burke afirma não havido rupturas na Inglaterra, mas sim um processo evolutivo contínuo.
O Mr. Price fazia apologias à revolução francesa no parlamento inglês – e Burke fazia o contrário: questionava as bases dos fundamentos e a legitimidade da revolução. Ex: declaração dos direitos universais.
            Tese conservadora de Burke: continuidade, inexorabilidade.
            Tanto o progressista quanto o conservador estão em oposição ao pensamento liberal.
            Mas o progressista e o liberal se identificam mais do que em relação ao conservador. Ambos os primeiros acreditam no interesse. Para o conservador, é a cultura um elemento primordial.
            2: Michels, os partidos políticos servem aos propósitos de quem está no poder. A formação de uma sociedade socialista é impossível, primeiro que para se estabelecer uma nova ordem é preciso poder, e este está relacionado necessariamente ao estado.
            A real democracia também é impossível. Uma maior divisão de poderes significaria tão só um maior número de elites.
            As camadas inferiores são sempre influenciadas pelo fascínio que o poder exerce, e acabam por realimentar as elites. Então o poder não se modifica. Corrupção e poder andam juntos, e aqueles que ascendem ao poder necessariamente se distanciam das massas. A massa é incompetente para tomar decisões e precisa de chefes políticos.
            As postulações conservadoras de Michels, Pareto, Mosca e Weber constituíram um grande desafio ao campo da democracia e do marxismo. Nos anos 50 e 60, elas realimentaram o liberalismo teórica e politicamente, gerando a noção de “democracia relativizada” – despida de componentes igualitários e utópicos.

            Ainda se divide em 2 grupos: a classe eleita de governo (que exerce papel importante no governo) e a classe eleita de não – governo (não pertence ao governo). Resto é a camada inferior da sociedade.
            Resíduos e derivações estão desigualmente distribuídos por toda a população responsáveis pela dinâmica da sociedade, pelo equilíbrio social e pelo modo através do qual as “elites circulam”.
            Resíduos: “sentidos que expressam instintos”. Dividem-se em duas classes: 1- de conservação; 2- de combinação/ renovação. Cada classe molda o perfil de um tipo de elite, de acordo com sua preponderância maior ou menor na elite política.
            Derivações: “maneiras utilizadas pelos humanos para explicar suas maneiras de agir, tentando atribuir a ações inclusive não lógicas um verniz racional”. Ex: ideologias.
            Para que o equilíbrio social se mantenha, as elites devem circular. Caso contrário, chega-se à noção de revolução (isso existe mesmo nas elites).
            Michels escreve, em 1911, “a sociologia do partido político na democracia moderna”, sobre a organização da social democracia alemã. Foi militante da SPD e sofreu influências tanto conservadoras (Mosca, Pareto, Weber) quanto progressista – Sua obra é singular por isso. Para ele, a “classe política” é uma fatalidade (Mosca e Pareto). No entanto, ela é incompatível com a democracia. O ideal para ele seria “uma aristocracia de homens moralmente bons e tecnicamente capazes”, mas, como isso não existe, conclui ser necessário “dotar as massas de meios de controle dos governantes”. Ex: sindicalismo revolucionário, assembléias populares.
            A modernização leva necessariamente a uma oligarquização do poder político, seja nos partidos ou nos sindicatos. Burocratização; mesmo naqueles que prezam a democracia e o socialismo. Nesse sentido, Michels confirma o postulado do elitismo de que “em todo agrupamento humano sempre existirá uma minoria responsável por dirigir e controlar o grupo social”.
            Essas aferições eram perturbadoras e desafiadoras para o marxismo, que pregava o autogoverno das massas (a autêntica democracia).
            O governo bolchei que na Rússia e principalmente o estalinismo viriam a “comprovar” a tese elitista do governo da minoria.
            Para o elitismo, o poder é, em si, antidemocrático – nega a possibilidade de soberania popular. Será sempre o governo de uma minoria, independente da ideologia. As massas são sempre exploradas para que esse poder se mantenha racional “em todas as esferas da vida (política, econômica) – gerando o desencantamento do homem moderno”. Burocratização da vida.
            Weber estuda o poder e as diferentes formas de domínio legítimo (aceito pelos dominados): a) tradicional; b) racional – legal; c) carismático (esse é o do político por vocação, o mais revolucionário). Os partidos formam se em torno de interesses agregados. Weber realizou estudo sobre os partidos políticos modernos e assinalou a luta de 2 formas estruturais: dos notáveis e dos funcionários do partido.
            Processo de racionalização e burocratização (das máquinas partidárias e do estado) da vida política (profissionalização da política). (ceticismo em relação a isso)
            Conservadores eram contra a ampliação da democracia; queriam preservar o sistema político e a ordem econômica K/a.
            O indivíduo (noção liberal) deveria dar lugar ao coletivo e aos interesses da classe. Corporativismo (a negociação deveria se dar entre as 3 partes: estado, patrões, sindicatos).
            Teorias sociológicas das elites – Pareto, Mosca e Michels – elitismo. “Minorias dirigentes” como uma fatalidade em toda e qualquer ordem política. Anos 30 e 50 da guerra fria (esses pensamentos foram muito aproveitados. Esses autores escreveram no início do século XX.).
            Mosca: toda sociedade é formada por uma elite dirigente – a “classe política” e uma maioria governada. Sem isso não é possível existir ordem social desenvolvida. O único instrumento de defesa dos governados contra arbitrariedades da elite seria o pleno exercício da “defesa jurídica!”.
            Mais um pouco de Weber: o poder político é exercido não somente através da força física, mas sim tendo legitimidade, ou seja, obediência daqueles que são governados (reconhecimento).
            Pareto: desenvolve mais a noção de elite e considera a teoria de Mosca insuficientemente e científica. A sociedade é composta por diversas elites, que são formadas por aqueles “que possuem os índices mais elevados no seu setor de atividades”. Mas essa classe eleita (elite).
            O liberal defende o interesse individual (individualismo), enquanto o progressista, de classe.
            O conservador é defensor da intervenção estatal. Ele tende a apoiar estados autoritários. O individualismo massacra valores que lhe são sagrados e cria uma sociedade de massas.
            Golpe de 64: aliança entre conservadores e liberais, para deter os progressistas.

O marxismo nos anos 1890 e sua crise.

            Marx morre em 1883.
            Após a comuna de Paris não se fala mais em revolução.
            Vigora o período de “paz conservadora”.
            O partido social. Democrata alemão era o maior e mais importante partido operário do mundo.
            Pareto é um dos críticos do marxismo.
           
a)      A luta de classes é recusada como “motor” da história, em favor de uma multiplicidade de fatores, dentro de uma delimitação cultural que envolve um contexto específico no tempo e no espaço. Entra aqui o conceito ou noção de elite e de conflito inter e intra-elites, o que propõe o uso de componentes subjetivos na avaliação de “causas da ação social”, como um paralelogramo de “forças atuantes”.

b)      Recusa da lógica, opressores x oprimidos, como etnocentrismo ético (aqui entrará o conceito weberiano de legitimidade e o de equilíbrio social, de Pareto).

c)      Recusa a determinação da infra-estrutura econômica sobre a superestrutura política intelectual, essa componente não será negada, mas redimensionada, dando lugar à visão mais complexa da estrutura social que rejeita generalizações.

O pensamento conservador dá muita ênfase ao aspecto cultural (a cultura condiciona até a atividade econômica), enquanto o marxista enfatiza o econômico para o liberal, o que é a liberdade é a riqueza.
             Pensamento conservador: o conflito não se dá entre classes, mas entre a massa e a elite (esse conflito só se dá em momentos revolucionários. No normal, a massa é conduzida pela elite) e também entre as elites.
           
            Pareto: a sociedade é dinâmica; há sempre grupos que comandam outros – mesmo fora de épocas revolucionárias. A elite é formada por pessoas talentosas. Ex: elite de pintores.
            A sociedade é muito diversificada. Surgem grupos especializados, talentosos para algumas coisas. São as diversas elites que comandam a sociedade, que comandam a massa. Elite é quem tem prestígio, quem tem honra social. É claro que o status social é sustentado por uma base econômica, mas essa base econômica não é determinante. Ela é importante, mas não fundamental.
            É o voto popular que legitima a ação política. Antes era o sangue. (Weber: “legitimidade política”).
            A elite das elites, para Pareto, é a elite política. São pessoas competentes para mexer na máquina – especialistas. Os especialistas são formados na universidade.
            Elas têm status, prestígio social, legitimidade, boas relações pessoais.

            DÚVIDAS
            (texto do pensamento conservador) O que é exatamente a classificação de Weber entre notáveis e funcionários do partido, ao fazer um estudo sobre partidos políticos modernos? (pg6)

            Por que, segundo Pareto, os resíduos (sentimentos que expressam instintos) estão desigualmente distribuídos na população? Qual é a importância das noções de resíduos e derivações para a teoria política de Pareto? (ex: elites, circulação das elites, equilíbrio social).
            “Resíduos têm papel importante na determinação do equilíbrio social”   - texto de Aron, pg 386.
            É com a grande guerra, de 1914, que desaparece o velho mundo tradicional, as aristocracias, os grandes impérios.
            A teoria marxista se reivindica científica, o que a enquadra no cientificismo de sua época. Marx elabora um método de análise da sociedade uma teoria da história. Ele se afasta deliberadamente do discurso da caridade. Seu objetivo é fazer ciência e resolver os problemas cientificamente. Ele adota como base a economia política. Pareto é duro sem criticar essa intenção de utilizar a ciência para resolver as questões sociais. Segundo ele, a ciência não estabelece objetivos, nem formula soluções para a sociedade: ela só constata regularidades.
            Valor da mercadoria (quantidade de trabalho socialmente necessário para produzir certa mercadoria).
            A valia é o trabalho não remunerado.
            Crítica à teoria econômica de Marx
            Marx: Valor da mercadoria: quantidade de trabalho incorporado; mais valia: quantidade de trabalho não remunerado; o valor gerado na produção K/a é explorado do trabalhador.
           

domingo, 22 de junho de 2025

 Como se formam as famílias?

A palavra "família" tem origem no termo latino familia, que, por sua vez, deriva de famulus, que significa "servo" ou "escravo doméstico". Na Roma Antiga, a familia não se restringia apenas aos laços consanguíneos, mas englobava todos os membros da casa, incluindo servos e escravos, sob a autoridade do chefe familiar, o pater familias. 

Com o tempo, o conceito de família evoluiu, e hoje, a palavra se refere ao grupo de pessoas unidas por laços de parentesco, casamento, afetividade ou adoção. Apesar da origem com conotação de servidão, a palavra família carrega atualmente um forte significado de união, afeto, apoio e pertencimento. 

Em resumo, a palavra família tem raízes no latim familia, que originalmente se referia ao conjunto de pessoas sob o domínio de um chefe de família, incluindo servos e escravos. No entanto, o termo evoluiu para representar as relações familiares modernas, baseadas em laços de parentesco, afetividade e convivência.

Na sociologia, a família é entendida como uma instituição social fundamental, composta por pessoas unidas por laços biológicos, afetivos ou legais, e que desempenha papéis cruciais na socialização inicial e no desenvolvimento dos indivíduos. A família evoluiu ao longo do tempo, com diferentes tipos surgindo e suas funções se adaptando às mudanças sociais, econômicas e culturais. 

Conceito de família na sociologia:

·         Instituição social:

A família é reconhecida como uma das instituições sociais mais antigas e importantes, moldando valores, normas e comportamentos. 

·         Laços:

Pode ser definida por laços biológicos (parentesco de sangue), afetivos (laços emocionais) ou legais (casamento, adoção). 

·         Socialização:

A família é considerada a primeira e mais importante agência de socialização, responsável por transmitir cultura, valores e normas sociais aos seus membros, especialmente às crianças. 

·         Evolução:

O conceito de família não é estático, tendo passado por transformações ao longo da história, com diferentes tipos de famílias surgindo em diferentes contextos sociais e culturais. 

·         Funções:

Além da socialização, a família desempenha outras funções importantes, como proteção, cuidado, apoio emocional e econômico, e transmissão de identidade. 

·         Abordagens:

A sociologia analisa a família através de diferentes abordagens teóricas, como a funcionalista, a marxista e a interacionista, cada uma com suas próprias perspectivas sobre a estrutura e o funcionamento familiar. 

·         Diversidade:

A família contemporânea é caracterizada pela diversidade de suas configurações, incluindo famílias nucleares, extensas, monoparentais, homoafetivas, entre outras. 

 A família como objeto de estudo:

A sociologia da família investiga diversos aspectos da vida familiar, como:

·         Estrutura familiar:

Como as famílias são formadas, organizadas e se transformam ao longo do tempo. 

·         Funções familiares:

Quais são as funções desempenhadas pela família na sociedade e em relação aos seus membros. 

·         Relações familiares:

As relações entre os membros da família, incluindo relações de casal, pais e filhos, e relações com outros parentes. 

·         Impacto da família:

O impacto da família na vida dos seus membros, incluindo o desenvolvimento social, emocional e psicológico. 

·         Políticas públicas:

O estudo da família também se relaciona com as políticas públicas voltadas para a família e o bem-estar familiar. 

 Os diversos tipos de famílias

Existem diversos tipos de famílias, e a definição tradicional de família, composta por pai, mãe e filhos, não é mais a única forma reconhecida. A família pode ser nuclear (pais e filhos), extensa (inclui parentes como avós e tios), monoparental (um único responsável), adotiva, homoafetiva (pais do mesmo sexo) e reconstituída (casais com filhos de uniões anteriores), entre outras.

Segundo o artigo 226 da Constituição da República de 1988, a família é compreendida como a base da sociedade e recebe uma proteção especial do Estado.

Ao longo dos anos, o significado de família vem sendo alterado. A família tradicional, família nuclear, composta por pai, provedor da casa; mãe, cuidadora da família, e seus filhos foi sendo substituída por novos tipos de família.

Atualmente, o entendimento jurídico sobre a família comporta vários tipos de agregado familiar e visa dar conta de toda a complexidade dos fatores que unem as pessoas.

1. Família Nuclear: Pai, mãe e filhos.

2. Família Extensa: Inclui parentes como avós, tios, primos, etc.

3. Família Monoparental: Um dos pais com seus filhos.

4. Família Homoafetiva: Casais do mesmo sexo, com ou sem filhos.

5. Família Reconstituída: Casais com filhos de relacionamentos anteriores.

6. Família Anaparental: Sem pais, formada apenas por irmãos.

7. Família Adotiva: Família que adota uma criança.

8. Família Eudemonista: Unida pela busca da felicidade e laços afetivos, independente de consanguinidade.

9. Família Paralela/Simultânea: Uma pessoa com duas relações familiares ao mesmo tempo. 

10. Família matrimonial : A família matrimonial comporta a ideia tradicional de família, constituída a partir da oficialização do matrimônio (casamento). Na lei vigente, a família matrimonial compreende os casamentos civis e religiosos, podendo ser hétero ou homoafetivo.

11. Família informal: Família informal é o termo utilizado para os agregados familiares formados a partir da união estável entre seus elementos. Esse tipo de família recebe todo o tipo de amparo legal mesmo sem a oficialização do matrimônio.

12. Família unipessoal: As famílias unipessoais cumprem uma função jurídica importante por se tratarem de pessoas que vivem sozinhas (pessoas solteiras, viúvas ou separadas). Essas pessoas recebem amparo legal e não podem ter suas heranças familiares penhoradas pela justiça.

13. Famílias nas religiões de matriz africana: Nas religiões de matriz africana, a família é entendida como uma unidade grupal que transcende laços de sangue e inclui relações de aliança, filiação e consanguinidade, com forte valorização da família extensa. A noção de família também se estende aos laços estabelecidos dentro do terreiro, onde o pai ou mãe de santo e seus filhos espirituais compartilham valores ancestrais e constroem um senso de pertencimento. Além disso, a relação com os ancestrais, através dos orixás, é fundamental, formando uma rede de parentesco espiritual.

  •        Família no terreiro: O terreiro, mais do que um espaço religioso, é um local de reprodução de valores ancestrais, onde a relação com o pai/mãe de santo e outros membros cria um senso de família e pertencimento. 
  • Parentesco espiritual: Nas religiões de matriz africana, o parentesco vai além dos laços biológicos, incluindo a relação com os orixás e ancestrais, que se manifesta em rituais, práticas e na própria dinâmica do grupo. 
  • Família extensa: A família extensa, com suas múltiplas gerações e laços de parentesco, é um elemento central, funcionando como um sistema de apoio social, espiritual e mítico. 
  • Ancestralidade: A relação com os ancestrais é fundamental, pois eles são vistos como guias e protetores, influenciando a vida dos seus descendentes e fortalecendo os laços familiares. 
  • Enredo: O "enredo" é uma forma de parentesco espiritual, uma ligação profunda entre pessoas e orixás, que pode ser entendida como uma história pessoal, um conjunto de laços e afinidades, segundo pesquisadores da área. 

A legislação brasileira reconhece a diversidade familiar, incluindo a união estável e a família monoparental como entidades familiares. A família contemporânea é marcada pelo afeto, respeito mútuo e busca pela felicidade, indo além dos laços de sangue. 

A sociologia aborda a família como uma instituição social complexa e multifacetada, com diferentes configurações e funções, e que desempenha um papel crucial na socialização e no desenvolvimento dos indivíduos. 

Família como instituição social segundo Pierre Bourdieu

Pierre Bourdieu via a família como uma estrutura social fundamental na reprodução das desigualdades, onde o "habitus" familiar e os capitais culturais e sociais são transmitidos, influenciando as trajetórias individuais e as relações com as instituições, como a escola. A família, segundo ele, não é apenas um grupo de parentesco, mas um campo de disputas onde se manifestam relações de poder e onde se produzem e reproduzem práticas sociais e culturais. 

·         Habitus:

O habitus é um conjunto de disposições duráveis e transponíveis, adquirido através da experiência familiar, que influencia percepções, avaliações, sentimentos e ações. Ele molda a forma como os indivíduos interagem com o mundo e com as instituições, incluindo a escola. 

·         Capital Cultural:

Bourdieu diferencia três formas de capital cultural: incorporado (conhecimentos, habilidades, gostos), objetivado (livros, obras de arte, instrumentos) e institucionalizado (títulos acadêmicos). A família, especialmente a de origem, é crucial na transmissão do capital cultural, o que pode levar a vantagens ou desvantagens no campo educacional e social. 

·         Capital Social:

O capital social refere-se à rede de relações sociais que um indivíduo possui, incluindo laços familiares, amizades e contatos profissionais. Essa rede pode ser usada para acessar recursos e oportunidades, e a família é um dos principais locais de formação e transmissão do capital social. 

·         Campo:

A família pode ser entendida como um campo social, ou seja, um espaço de relações sociais onde os indivíduos e grupos disputam posições e recursos. A posição de cada família nesse campo influencia as chances de seus membros no acesso a recursos como educação, emprego e influência social. 

·         Violência Simbólica:

Bourdieu descreve a imposição do "arbitrário cultural" da escola como uma forma de violência simbólica, pois ela pode desvalorizar o capital cultural das famílias de classes sociais menos favorecidas, perpetuando desigualdades.

Bourdieu via a família como um local de produção e reprodução de práticas sociais, um campo de disputa por capitais (cultural, social e econômico) e um agente crucial na socialização dos indivíduos. A família, através do habitus e da transmissão de capitais, influencia as trajetórias individuais e a relação dos indivíduos com as instituições, incluindo a escola, perpetuando ou transformando as desigualdades sociais.

Contribuição da internet para o debate público sobre como se forma uma família

Na sociedade  brasileira é possível notar que foi a internet que promoveu o debate público acerca do que forma uma família. O modelo de família que os brasileiros conheciam como "ideal", mesmo estando longe da realidade de muitos brasileiros, possuía uma estrutura patriarcal onde o homem ocupava o espaço público da sociedade e a mulher estava restrita ao espaço privado, cuidando do aspecto doméstico da vida social. Mesmo com a entrada das mulheres no mercado de trabalho, com maior intensidade na década de 80 do século passado, a realidade não mudou para os homens, que continuaram ausentes nas tarefas domésticas, gerando dupla jornada de trabalho para as mulheres. O advento da internet levou o debate sobre os papéis sociais dos homens e das mulheres das universidades para a vivência de pessoas que talvez nunca tivessem acesso a esse tipo de informação. Foi a internet também que ampliou o debate sobre as questões de gênero, incluindo-as no que a sociedade entende como família. 

Contribuição dos movimentos sociais para o debate público sobre como se forma uma família

A internet favoreceu também a organização e o fortalecimento dos movimentos sociais de luta por igualdade. Os movimentos sociais feminista e LGBTQIAPN+. Essa sigla se refere às lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queer, intersexo, assexuais, pansexuais, não-binários e outros que não se identificam nas categorias tradicionais de gênero e sexualidade. O "+" representa a inclusão de todas as outras identidades e orientações sexuais que não se encontram na lista de modo específico. Essa comunidade, embora também forme família, teve somente em 2011, através de uma decisão do Supremo Tribunal Federal e em 2013, pelo Conselho Nacional de Justiça, a união estável homoafetiva reconhecida na esfera legal. 


domingo, 18 de maio de 2025

Helenismo

O helenismo começou no Império de Alexandre, o Grande, e se estendeu até o século I d.C.

Projeto de educação que visava a massificação da cultura grega difundida por todo o mundo conhecido.

Nesse contexto surgiu o termo “cosmopolita”, que significa cidadão do cosmos, grande cidade que constitui o universo.

A massificação da cultura grega propagou também a filosofia nascida na Grécia.

Essa propagação aumentou a popularidade, mas reduziu a profundidade, perda de identidade política do cidadão da época.

Isso aconteceu porque não existia mais um estado democrático em Atenas, mas um estado constituído enquanto Império.

Perda de sentido da vida pública: preocupação dos cidadãos com questões políticas enquanto atividades da Polis.

Houve também o abandono quase completo de questões metafísicas.

As escolas que surgiram nesse período se fundaram sobre a questão da ética e matéria, introduzida por Sócrates à Filosofia.

Importância do discurso filosófico: justifica a escolha de vida e desenvolve suas implicações.

Viver filosoficamente significa exercer uma ação sobre si mesmo e sobre os outros.

Trata-se do diálogo com os outros ou consigo mesmo.

Aponia e Ataraxia: A ausência de dor (aponia) e a falta de perturbação mental (ataraxia) eram vistos como estados de prazer katastemático, ou seja, estados de quietude e paz. 

Escolas

Epicurista: cálculo dos prazeres.: O objetivo final da ética epicurista era atingir um estado de aponia e ataraxia, eliminando a dor e a ansiedade e alcançando a felicidade. 

Prazeres Naturais e Necessários: São aqueles que são essenciais para a sobrevivência e bem-estar, como comer, beber e dormir. A satisfação desses prazeres é crucial para evitar a dor. 

Prazeres Naturais mas Não Necessários: São prazeres que, embora naturais, não são indispensáveis para a vida, como a alimentação refinada ou roupas elegantes. 

Prazeres Não Naturais: São prazeres que são criados pela sociedade e não são necessários para a felicidade, como fama, riqueza ou poder. Epicuro considerava que a busca por esses prazeres podia levar ao sofrimento, pois dependiam de fatores externos e não eram controláveis pelo indivíduo. 

A importância da moderação: Para Epicuro, a felicidade é alcançada através do prazer moderado, evitando a busca excessiva e o sofrimento que pode resultar da insatisfação. 

Cínica: desapego/razão.

Desprezo pelas convenções sociais: Os cínicos desprezavam as normas e regras sociais, considerando-as artificiais e desnecessárias para a busca da felicidade. 

Vida simples e natural: Praticavam uma vida austera, sem preocupações com bens materiais ou conforto, buscando viver de acordo com a natureza. 

Foco na virtude: A virtude era vista como o único bem verdadeiro, e a felicidade era alcançada através da prática da virtude. 

Desapego aos bens materiais: Os cínicos desvalorizavam a riqueza e a busca por bens materiais, considerando-os como obstáculos para a felicidade. 

Indiferença ao prazer: Não se preocupavam com o prazer ou a satisfação dos desejos, buscando a tranquilidade e a liberdade interior. 

Estoica: subordinação ao destino/imperturbabilidade do espírito.

Virtude como único bem: Os estoicos acreditavam que a virtude (sabedoria, justiça, coragem e temperança) era o único bem verdadeiro e que a felicidade (eudaimonia) dependia do cultivo da virtude. 

Acomodação à natureza: A vida deve ser conduzida em harmonia com a natureza, tanto com o universo (governado pela razão) quanto com a natureza humana. 

Razão e autodomínio: Os estoicos enfatizavam a importância da razão na tomada de decisões e no controle das emoções, buscando a serenidade (ataraxia) e a independência em relação às coisas externas. 

Aceitação do que não pode ser controlado: É fundamental aceitar com serenidade o que está fora do nosso alcance e focar no que podemos controlar, como nossas ações e pensamentos. 

Importância da morte: A morte é vista como parte natural do ciclo da vida e não como algo a ser temido, mas sim como algo a ser aceito com calma e resignação. 

A importância da vida moral: Os estoicos buscavam viver uma vida virtuosa e moral, focando no desenvolvimento de bom caráter e na busca pela excelência. 

 

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Mercado da saúde mental

Entrevista do filósofo Luis Felipe Pondé para o canal Linhas Cruzadas. Disponível no YouTube.

Patologia ou normalidade?

Conceito de sanidade mental: possui caráter histórico, porque muda conforme a época.

Transformação de comportamentos psicológicos do âmbito da psicopatologia em transtornos ou diversidade psíquica. Ex.: Autismo.

Entendimento da doença mental: tendência à relativização ao mesmo tempo em que ocorre um notável crescimento de diagnósticos.

Debate acerca das fronteiras: o melhor exemplo é a experiência religiosa, que pode ser entendida como experiência fora da normalidade, passível de diagnóstico.

Saúde mental é a grande fronteira do mercado no século XXI.

Exemplo de marco histórico: racionalidade burguesa que propõe retirar de circulação quem não se comporta de acordo com os valores burgueses.

Há momentos em que se alguém falar em patologia mental será visto como preconceituoso.

Relação entre o aumento dos diagnósticos e o mercado de saúde mental: conforme são formados profissionais, estabelecidos procedimentos técnicos para os diagnósticos, são produzidos certos protocolos de tratamento... Isso tudo já é o mercado. Mas não significa que o trabalho não é sério, mas que houve um aumento do ferramental que impacta a própria percepção do fenômeno. Esse aumento significa clínicas, profissionais, cursos de formação... E assim começa a se concretizar um processo de comoditização da saúde mental, que se transforma em um nicho de produção de riqueza, produção de riqueza, produção de demanda e amplia a própria percepção de realidade. Ex.: Antes de podia ter uma criança "pestinha" na escola, agora tem o diagnóstico...

O diagnóstico é um alívio para os pais no sentido de saberem o que filho tem, qual é a medicação, profissional...

Os pais têm ficado rendidos em relação à saúde mental dos filhos.

No ambiente escolar e social o suicídio se apresenta como tema delicado porque ninguém quer ter a imagem comprometida com uma alta taxa de suicídio.

As redes sociais alimentam o sofrimento psicológico das pessoas, principalmente os jovens.

A vulnerabilidade e a incapacidade de lidar com qualquer coisa relacionada à autoestima e ao bem-estar fazem com que as pessoas busquem tais garantias em agentes externos.

Cientistas como psicólogos, por exemplo, sugerem que os pais não sabem como educar os filhos e oferecem esse tipo de serviço.

Transferência da culpa do ambiente familiar e social para a genética. Isso não tem como garantir que é verdade.





terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Para onde vai o lixo que produzimos?

 

Para onde vai o lixo que produzimos? 


Autores: David Amaral e Elaina Sieiro.

   Essa reportagem foi realizada a partir de entrevistas. As perguntas foram criadas tendo como foco a reflexão crítica  sobre o meio ambiente,  principalmente os rios, mares, lagos e oceanos. Foram entrevistadas cinco pessoas maiores de dezoito anos.

   As perguntas foram elaboradas com o objetivo de identificar se as pessoas têm  conhecimento sobre o destino do lixo que produzem. Entre os entrevistados ninguém sabia que o lixo produz uma imensa poluição nos oceanos e , desse modo, prejudicando a vida marinha.
  
   No oceano Pacífico, por exemplo,  tem tantos plásticos descartados como  lixo, que já correspondem a dezesseis vezes o território de Portugal. E se os seres humanos  não mudarem seus hábitos de consumo em 2050 haverá mais plásticos do que peixes nos oceanos . Essas informações são públicas  e se encontram no canal "Menos um lixo " no YouTube.  As pessoas entrevistadas não conheciam os cinco erres da sustentabilidade: repensar, reduzir, recusar, reutilizar e reciclar.


    De acordo com as respostas do entrevistados foi possível concluir que é fundamental que a espécie humana crie meios para que o meio ambiente não continue sendo prejudicado pelo descarte inadequado  de lixo.

 

 

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Paulo Baía, sobre Lya Luft.

Lya Luft faleceu.
Estou triste.
Minha homenagem é reproduzir um texto que postei em passado recente.
Sou grato ao que aprendi com Lya Luft .

Lya Luft e o voto bolsonarista.

O voto é uma relação de "Troca Assimétrica", movida por afetos e cognição, no estrito sentido do significado das palavras afeto e cognição.
Afeto como a disposição de alguém por alguma coisa, seja positiva ou negativa, e  cognição como a capacidade de processar informações e transformá-las em conhecimento, com base em um conjunto de habilidades como a percepção, a atenção, a associação, a imaginação, o juízo, o raciocínio e a memória.
O voto tem uma racionalidade na escolha, o eleitor faz um balanço de perdas e ganhos, uma avaliação de benefícios e custos de sua ação eleitoral.
A escolha nessa "Troca Assimétrica" sempre é mais vantajosa para o candidato do que para o eleitor.
O eleitor, por seus afetos e cognição, centra sua escolha na sua própria história de vida e de sua malha de sociabilidade.
Mesmos os votos mais altruístas, movidos por "Causas", são enredados em um convívio de afetos e cognições do "mundo visível e experimentado" pelo eleitor.
O candidato fala e se expõe sempre de maneira "segmentada" ou "individualizada" para captar a decisão do eleitor.
O candidato faz um processo de "sedução" do eleitor, fazendo com que o eleitor troque seu voto ou por adesão ao candidato ou por repúdio aos demais candidatos, sem que necessariamente haja adesão ao candidato escolhido.
A racionalidade da escolha eleitoral é sazonal, raramente estruturada e atemporal.
O momento do voto, seu tempo e espaço, são os vetores de motivação afetiva e cognitiva  para uma escolha assimétrica, que sempre traz consequências positivas ou negativas para o autor da escolha.
Assim foi com Lya Luft, que não é uma ressentida, desencantada, desalentada.
É uma mulher forte, sabe o que quer e é determinada.
Vanguardista em sua geração, mulher libertária no campo profissional e existencial.
Extremamente culta e com elevado nível de escolarização, já possuia um mestrado em linguística em 1975 e outro em literatura brasileira em 1978, época em que muito poucos tinham o título de mestre no Brasil.
Leitora de Friedrich Schiller, poeta, filósofo, médico e historiador alemão.
Leitora de Johann Wolfgang von Goethe, Santo Tomás de Aquino e Jean Paul Sartre.
Professora notável na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi inovadora e pioneira dos primeiros cursos de pós-graduação no país.
Tradutora ousada, colocou em língua portuguesa Virgínia Woolf, Thomas Mann, Herman Hesse e muitos outros.
Como escritora tem destaque com "As coisas humanas", " Pensar é transgredir" e "Quarto fechado", que são mergulhos na alma humana.
Foi uma combatente contra a ditadura vinculada ao grupo de intelectuais/psicanalistas de Hélio Pelegrino, denunciando torturadores da área médica, psiquiatra e psicanalista que atuaram na ditadura brasileira a partir de 1964.
No Rio de Janeiro, participou das primeiras e históricas campanhas eleitorais do PT para o governo do estado com Lysâneas Maciel para governador e Vladimir Palmeira para o senado  em 1982. 
Em 1985 fez a campanha do desconhecido Wilson Farias do PT, tendo como vice a socióloga Miriam Limoeiro Cardoso, para a prefeitura do Rio de Janeiro, mesmo sendo amiga de Saturnino Braga do PDT e Marcelo Cerqueira do PSB, também candidatos.
O voto de Lya Luft, mesmo como escolha individual, tem significado público, é simbólico em termos políticos e sociológicos.
Representa a ambiência de afetos e cognição de um momento temporal de 57 milhões de brasileiros.
Não sabia que Lya Luft tinha votado em Jair Bolsonaro; se alguém me contasse, eu não acreditaria.
Soube com a entrevista da própria declarando seu arrependimento.
Por que votou? De acordo com seu relato, fez uma escolha assimétrica movida pela rejeição aos demais candidatos, em função de suas experiências de vida em relação aos competidores.
Escolheu não ganhar muito ou quase nada a ter que perder, na sua avaliação afetiva e cognitiva, com a vitória dos demais candidatos.
Com a escolha de Jair Bolsonaro, Lya Luft materializou seus afetos e cognições no segundo semestre de 2018.
O arrependimento público em junho de 2020 mostra outro momento de afetos e cognição. Lya Luft percebeu, por sua vivência no cotidiano do governo Jair Bolsonaro desde janeiro de 2019, que sua escolha eleitoral lhe trouxe perdas, perdas grandes e significativas, em vez de ganhos pequenos ou não ganhos.
O voto de Lya Luft torna-se um "Voto Desvio Padrão" para se compreender a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro.
Como "Troca Assimétrica" , como uma racionalidade eleitoral  em que todos ganham - os eleitores pouco e menos  que o candidato - a votação de 57 milhões de votantes bolsonaristas está revelando que a "Assimetria" foi muito maior.  O eleitor está descobrindo que, não só não ganhou nada com a rejeição aos demais candidatos, como efetivamente está perdendo com sua escolha em 2018.
O "Voto Lya Luft" foi um padrão, que pode explicar a escolha de Jair Bolsonaro pela rejeição, como um decisão de racionalidade política da maioria dos votantes em Bolsonaro. Essa mesma racionalidade está a promover "Arrependimentos", pois a lógica da "Troca Assimétrica" foi rompida com as perdas e com um "custo" que é imensamente alto e sem benefícios.
O "Arrependimento Público de Lya Luft" pode vir a se tornar um fenômeno coletivo para a maior parte dos 57 milhões de eleitores. 
Creio que o voto "Lya Luft" explica, como padrão, a enorme escolha por Jair Bolsonaro nas regiões Sul e Sudeste do país.
O "Arrependimento" é um mecanismo psíquico, social e político que vem com a admissão pelo indivíduo de uma nova realidade em sua vida.
É um desprendimento com as amarras de um passado próximo ou distante, um ato de libertação, de arrojo pessoal ou coletivo.
O arrependimento de Lya Luft, para mim é muito bem-vindo, e basta para tê-la como aliada na luta contra o neofascismo do governo Bolsonaro.
Nessa questão eu estou sintonizado com Renato Janine Ribeiro , Sergio Abranches , Jose Alvaro Moises , Marcos Nobre  , Jairo Nicolau e  Bolívar Lamounier .
O "Voto Lya Luft" descortinou uma linha nova para entender o voto bolsonarista em 2018.
Não foi um voto de *"toscos"* e "imbecilizados", foi uma escolha feita preferencialmente pela "não escolha" aos demais candidatos.
Uma tomada de decisão dramática, contraditória, com subjetividades afetivas e cognitivas complexas, com dúvidas e incertezas no  voto. Sem estigmatizar eleitores de Jair Bolsonaro , sem "a prioris" morais condenatórios, com técnicas sociológicas e políticas, podemos decifrar o voto de Lya Luft e compreender pelo menos 30 milhões dos 57 milhões de votos em Jair Bolsonaro, nas principais cidades das regiões Sul e Sudeste do Brasil.
Nas demais regiões e na maioria das cidades do interior de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul temos outras variáveis de entendimento em que a "Idéia Projétil"  de Jair Bolsonaro é protagonista das escolhas. Nessas os eleitores estão tendo "ganhos" com o voto em Jair Bolsonaro.

Paulo Baía.
Sociólogo e cientista político.
25/06/2020